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A TRADIÇÃO DAS FOLIAS DE REIS NA REGIÃO DE RIO DAS FLORES E ÁREAS ADJACENTES

As celebrações realizadas em louvor aos Santos Reis foram trazidas pelos portugueses no período de colonização do Brasil. Os missionários jesuítas, no processo de catequese e ensino dos nativos e dos próprios colonos vindos de Portugal (Reinóis), ministravam seus ensinamentos sob forma de cantos, danças e representações, no sentido de por em relevo a doutrina cristã.

Assim, nas celebrações do Natal, Ano Bom e Dia de Reis, a cena da Natividade de Cristo era representada no recinto das igrejas, em cuja peça era inserida a passagem bíblica da Adoração dos Reis Magos, relatada no Capítulo 2 do Evangelho de São Mateus.

A Folia de Reis consiste num grupo ritual que se derivou dessas celebrações, sendo, originalmente, organizada no meio rural pelos seus componentes para pagamento de promessa ou externar devoção aos Santos Reis, através de uma peregrinação de visitas ás casas da comunidade.

Apresentam-se, normalmente, a partir da véspera do Natal (25 de dezembro) até o dia de Reis (06 de Janeiro), visitando as casas da comunidade e da região nas quais entoam versos cantados, conhecidos com toadas, acompanhados de instrumentos musicais: violas, pandeiros, sanfonas, caixas, triângulos, entre outros. Essa cantoria relata, na essência, a viagem dos Reis Magos guiados por uma Estrela Resplandecente o caminho da Gruta em Belém, para adorarem o Menino-Deus recém nascido, oferecendo-lhe valiosos presentes: Ouro, Incenso e Mirra.

Como se sabe, a ocupação territorial da região, compreendida pela Bacia Oriental fluminense do Médio Rio Paraíba do Sul, em particular, compreendendo atuais municípios do atual Rio das Flores[ex- Santa Teresa] e Valença, se deu numa fase posterior ao seu desbravamento, por um significante contingente de imigrantes mineiros. Estes eram, principalmente, originários da vizinha região mineira da Comarca do Rio das Mortes, sendo a cidade de São João del Rei o seu centro político e econômico. Vieram consolidar a implantação de fazendas, povoados e cidades constituídas por doações de Sesmarias, integrando o conhecido “Vale do Ciclo do Café”, localizado entre as Serras do Mar e da Mantiqueira e banhado, conforme mencionado, pelo Rio Paraíba e seus tributários.

De acordo com à Historiadora rioflorence Vilma Dutra Navarro, há muito se dedicando com afinco á pesquisa da história do município de Rio das Flores, através de sucessivos artigos publicados no jornal local ‘A Voz de Santa Tereza’: Tudo indica, foi a procura de terras férteis adaptáveis a cultura do café que levou ao desbravamento e colonização das terras de Rio das Flores [atual nome de Santa Tereza] no principio do século XIX”. Prossegue: “Os primeiros colonizadores de Valença vieram das Freguesias de Pati de Alferes e Sacra Família do Tínguá, só mais tarde começou a imigração mineira para nossa região, e o nosso município surgiu do desmembramento de Valença.O seu antigo nome era Santa Teresa. Os primeiros sesmeiros, donos de sesmaria [equivalente a 225 alqueires] doadas pela Corôa Portuguesa, chegaram aqui por volta de 1800.”

Continuando, Vilma põe em destaque os pioneiros a se instalarem no município rioflorense, proprietários de extensas terras :”Um dos grandes sesmeiros foi João Rodrigues Pereira de Almeida,mais tarde Barão de Ubá, sobrinho de José Rodrigues da Cruz, fundador de Valença. (...)Foi do alto comércio do Rio de Janeiro, tendo sido diretor do Banco do Brasil”. Sua propriedade compreendia terras no atual distrito de Abarracamento. Relata ainda que á mesma época e da mesma direção do Banco do Brasil foram também os primeiros sesmeiros que se intalaram na Fazenda da Forquilha[Jacinto Ferreira de Paiva], próxima da atual sede do município e nas Fazendas do Paraíso e da Luanda[João Pedro Maynarde da Fonseca], no atual distrito de Manuel Duarte.

Já no auge da cafeicultura fluminense, os vultos mais proeminentes que adquiriram extensas terras, anteriormente já ocupadas eram originários da cidade de São João del Reis. A figura política mais expressiva dessa época, foi sem dúvida o Visconde de Rio Preto, título recebido por Domingos Custódio Guimarães (1802) oriundo do São João del Rei, tendo adquirido no Município de Rio das Flores as citadas Fazendas do Paraíso e da Luanda. Outra figura da aristocracia rural dessa época foi o Barão de Rio das Flores (1815) que se estabeleceu na Fazenda São José situada nos arredores da atual sede do município, cuja edificação, no entanto, não existe mais.Era proprietário das terras do local onde se fundou cidade de Rio das Flores, sede do município,inclusive do terreno ocupado pele construção da Matriz municipal.

As descobertas das jazidas de ouro e posteriormente do diamante nos sertões do atual Estado de Minas Gerais no último decênio do século XVII, marcou o início do conhecido Ciclo do Ouro. Isto motivou, nos anos seguintes, um expressivo deslocamento de pessoas de todas as categorias dos centros mais populosos da Colônia, sobretudo: Salvador, Rio de Janeiro, e São Paulo, em menor proporção, rumo á região aurífera de Minas Gerais, compreendida pelas cidades da Comarca do Rio das Velhas [Ouro Preto, Mariana, Sabará, Caetés, etc] e do Rio das Mortes [São João del Reis, São José del Rei, atual Tiradentes, etc].Ao mesmo tempo, uma volumosa corrente emigratória proveniente d’além mar- portugueses [Reinóis], também demandava á região de mineração, em busca de riqueza fácil e rápida. Em decorrência da crise prolongada por que passava a industria açucareira da região nordeste - Pernambuco e Bahia- também afluíram para se ocupar da mineração do ouro alguns donos de Engenhos de Açúcar e seus respectivos auxiliares e escravos.

A Historiadora Maria Aparecida J.V.Gaeta , no seu livro “A Flor do Café e o Caldo da Cana” registra com muita propriedade a chegada dos colonos portugueses na Comarca do Rio das Mortes: “Assim, uma imensa maioria de portugueses agricultores – a maior parte porque advindos das Províncias tipicamente agrícolas do Reino- Minho e Trás-os-Montes- e que povoaram essa região de Minas [a Comarca do Rio das Mortes]”.Concluindo:”Quase todos que aí chegaram, os moradores dessa Comarca eram de origem portuguesa”.

Com o declínio das atividades da mineração na região aurífera de Minas Gerais, ao final do século XVIII, seus habitantes buscaram novas perspectivas de vida. Um ponderável contingente dirigiu-se para as lavouras de café cultivadas no Sul do próprio Estado, [atual Zona da Mata], bem como para região fluminense sob influencia da Bacia do Médio Rio Paraíba do Sul e seus tributários. Esta região passou constituir um importante centro de influência política e de opulência econômica no período do Brasil Império.

Ainda a propósito da ocupação da referida área fluminense, vale descrever o trecho abaixo do excelente trabalho de pesquisa realizado pelo Historiador Humberto F. Machado, no livro - Escravos, Senhores & Café.Utilizando-se de uma volumosa e atualizada fonte documental, registrou: “O Vale do Rio Paraíba fluminense, constituiu-se em grande centro cafeicultor na primeira metade do século XIX, especialmente a partir de 1820”. Continuando: “A difusão da cafeicultura no vale do Paraíba fluminense foi produto também da fixação de antigos mineradores dos quais retornaram ao litoral com seus escravos, após o declínio da mineração no ultimo quartel do século XVIII.(...) eles se estabeleceram ás margens dos velhos ‘caminhos do ouro’ que ligavam a região mineira a cidade do Rio de Janeiro, desenvolvendo de início uma pequena agricultura de gêneros alimentícios[ arroz, feijão, cana de açúcar, etc e criação de pequenos animais] e posteriormente a lavoura cafeeira”. A seguir, o Autor complementa: “Um comércio de gêneros alimentícios e de animais que originário de Minas Gerais, se articulava com o Rio de Janeiro, deu origem a um setor de subsistência mercantil o qual foi, também, responsável pela ocupação do interior fluminense. Os recursos e os caminhos das tropas tiveram um lugar de destaque na expansão da economia cafeeira. Assim, por essas vias de penetração foram se estabelecendo sítios e pousos de tropeiros, os quais forneciam á capital [Rio de Janeiro] gêneros agrícolas [ e pequenos animais] e alguns engenhos produtores de açúcar, além dos primeiros cafezais ”.

Pesquisas realizadas pelo folclorista mineiro Ulisses Passarelli indicam a presença das Folias de Reis em sua terra natal ,São João del Rei – MG, em meados do século XIX. Trata-se do mais antigo registro histórico sobre as tradições das Folias de Reis que se conhece no país.Provem do jornal “Arauto de Minas”, editado em São João del Rei cujo exemplar está arquivado na Biblioteca Pública desta cidade, considerada a mais antiga do Estado de Minas Gerais. Em sua edição de fevereiro de 1883, um texto preparado pelo então redator Severiano de Rezende, influente político do Partido Conservador, intitulado “O Tira o Reis” descreve com riqueza de detalhes o costume antigo de grupos folclóricos locais durante a época natalina. Neste Artigo o autor faz menção aos pedidos de ofertas ás casas visitadas, á Bandeira, aos Palhaço, entre outros interessantes aspectos abordados.

Como mencionado anteriormente, imigrantes portugueses oriundos de Trás-os-Montes estabeleceram na Comarca compreendida pela cidade de São João del Rei. Em conseqüência, como era de se esperar, trouxeram seus usos e costumes, em particular, a presença de Mascarados e Caretas( nossos conhecidos Palhaços) nos grupos de Folias de Reis, características de algumas localidades transmontanas ( Rio de Onor, Salsas, etc), inclusive da vizinha Província espanhola de Zamora. Outro aspecto interessante, diz respeito a presença, ainda hoje verificada nas folias de reis da região sãojoanense, de um personagem feminino; a “Catirina”. Em outras localidades mineiras, como São Antonio do Monte, Azurita, etc , encontra-se a presença da dupla “Catirina e Nego Veio ou Pai João”. Estes personagens são também típicos da região transmontana, no caso o “Casal de Mascarados ou Casal de Velhos”,como registra o etnógrafo português Benjamim Pereira no seu trabalho “Máscaras Portuguesas” –Instituto de Investigação do Ultramar- Lisboa, 1973. Poder-se-iam, também, supor como reflexo da influência dos personagens do Bumba-meu-Boi ( Pai Francisco e Catirina), trazidos pelos nordestinos oriundos das zonas açucareiras que afluíram ás lides da mineração do ouro.O folclorista paulista Maynard de Araújo, foi o primeiro a registrar, textualmente e fotograficamnete a presença da dupla “Catirina-Pai João”, no seu livro sobre a Folia de Reis da cidade de Cunha- SP, publicado em 1949. Como se sabe, Cunha era ponto de passagem das tropas(via Caminho Velho), transportando carregamento da produção aurífera demandando ao Porto de Parati-RJ, para embarque rumo á Portugal.

Atualmente, verifica-se a presença apenas da Catirina nos grupos de folias de reis de Juiz de Fora e em municípios vizinhos. Antigos moradores das fazendas da região fluminense contíguas à Minas Gerais registram o passado da Catirina- Nego Veio, dupla que despertava enorme interesse em sua apresentação.

Em resumo, diante dos fatos expostos anteriormente, é de se supor que a Tradição das Folias de Reis tenha vindo com os migrantes mineiros, principalmente provenientes da região de João del Rei e que se ocuparam das lavouras de café, cultivadas numa vasta extensão de terra na região fluminense, compreendendo os atuais municípios de Rio das Flores, Valença, Vassouras, Paraíba do Sul, Barra do Piraí, entre outros. Posteriormente, com a crise da cafeicultura iniciada em 1929 resultante do conhecido “Crash” da Bolsa de Nova York, os colonos emigraram das zonas rurais fluminenses para cidades mais desenvolvidas, em busca de melhores condições de vida, levando consigo as tradições das Folias de Reis.

No cadastro das Folias de Reis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro elaborado pela Federação do Reisado do Estado do Rio de Janeiro – FRERJA, localizada em Duque de Caxias, verifica-se que os grupos de Folias de Reis que aí se instalaram, geralmente nas favelas e áreas periféricas da referida região procederam do interior do próprio Estado, como também dos estados vizinhos; Minas Gerais e Espírito Santo.

Dentre as informações obtidas pelos depoimentos prestados pelos antigos e atuais Mestres de Reis da Região, como também de velhos conhecedores da tradição, a seguir relacionados com indicação dos falecidos, sobressai a figura do legendário Antonio São Bento, respeitável Mestre Folião.

Da Fazenda da Luanda em Manuel Duarte/Rio das Flores-RJ: Mestres Celestrino e Chico Terra que, por sua vez, passaram seus conhecimentos para os Mestres Miguelzinho e Cilú , e o Senhor Epaminondas Barbosa, todos já falecidos,
Da Fazenda do Paraíso em Manuel Duarte/Rio das Flores –RJ: Mestres Zé Roguel e Chico Nunes, falecidos,
Da Fazenda Velha em Porto das Flores/Belmiro Braga-MG: Mestres João Inácio e seu filho Francisco Inácio(Xixico), falecidos,
Da Fazenda da Forquilha em Rio das Flores-RJ: Mestres Lelego (Percides Correia, natural de Formiga-MG), e Hilário Leme, falecidos.
Da cidade de Rio das Flores: Mestre Humberto Frazão e Osmarino (antigo Palhaço ), falecidos e os Mestres Tachico(Francisco Victorino) e Joãozinho(João Alves Neto, neto de João Inácio).
Da localidade de Manuel Duarte-RJ: Senhor Miguel Nunes, falecido.
Da localidade de Porto das Flores/Belmiro Braga –MG: Mestre Tunico, e o Senhor Luis Honório, falecidos,
Da localidade de Carvalhais em Paraíba do Sul- RJ : Mestre Thomazinho, há muito radicado em Barrra Mansa-RJ , falecido,
Da cidade de Valença: Mestre Josino.

Antonio São Bento, além de Mestre respeitado era sanfoneiro e cantador das rodas de calango. Deixou notória influência nas tradições das Folias de Reis da região, através de seus inúmeros seguidores. De sua vida pouco se sabe. Uns dizem, vagamente, que vivia numa fazenda situada no Município de Rio das Flores. Outros afirmam que procede do povoado de São Bento próximo ao Distrito de Porto das Flores/ Belmiro Braga – MG. Há quem assegura ter vindo das bandas de Santa Bárbara do Monte Verde, próximo a Juiz de Fora- MG. O que se sabe de concreto é que Mestre Celestrino foi seu Bandeireiro[portador da Bandeira da Folia de Reis] e Caixeiro, antes de se transferir para a Fazenda da Luanda, onde constituiu sua própria Folia de Reis. Nesta, repassou, por sua vez, os conhecimentos e práticas adquiridos com Antônio São Bento aos componentes que se tornaram, mais tarde, também Mestres, dando assim continuidade a tradição. Dessa forma, os antigos Mestres da região não negam a Antonio São Bento mérito de grande conhecedor do reisado e exímio tirador de calango, chegando mesmo a lhe atribuir os ensinamentos utilizados. Vão além; relatam seus poderes místicos como Benzedor e a ocorrência de episódios envolvendo crenças e superstições nas jornadas de sua Folia de Reis.

Para concluir, sua figura ficou eternizada no verso da cantoria do calango:

“Se gosta de cantar Calango
Faço entrar por dentro.
Com Antonio São Bento aprendi Calango
Com 4 ou 5 palavras enfrento o caso por dentro
Se for de ferro, eu quebro
Se for de aço, arrebento”

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